7 vezes “Tá horrível!” – uma lição sobre feedback a todos que já fizeram alguém sofrer com o assédio moral

Você já ouviu algo direcionado a você como “Eu não preciso de gente incompetente igual a você!” ou “Você é mole! Se você não tem capacidade para trabalhar, então fique em casa!”?

Quase 50% dos profissionais Brasileiros reportam ter sido vítimas de assédio moral.

Independente de já ter passado por uma situação como estas, queria aproveitar esta semana da mulher, momento de interações e reflexões para nos mobilizarmos em torno da mudança de comportamento, não apenas com relação ao assédio sexual, predominantemente sofrido por mulheres no Brasil, mas pelo assédio moral – este mais amplo e que não escolhe sexo.

Não é um dado qualquer, na pesquisa recente realizada com 70.000 profissionais pelo portal Vagas.com e publicada nesta matéria da BBC Brasil (veja matéria completa).

O programa Masterchef Brasil é sem dúvida um dos favoritos em casa. Além dele ser uma fonte de inspiração e aprendizagem gastronômica, atrai-me muito no programa o fato de ser um destes laboratórios de relacionamento humano que temos a oportunidade de acompanhar, observar de fora. Dessa forma, conseguimos ter acesso a determinadas interações interpessoais negativas que, justamente pelo seu cunho pejorativo ficam escondidas nos cafés das empresas, trancadas em salas de reunião minúsculas ou até mesmo reclusas nas linhas telefônicas. E falando em interações humanas, veja o que aconteceu com o participante no episódio de ontem, aos 17:30 min — são 7 vezes repetidas a palavra “Horrível” e “Horroroso” no feedback ao participante.

 

A Chef Paola Carrossela é uma grande líder, justamente por seu entusiasmo em apoiar as pessoas a se superarem, a se desenvolverem e ir mais longe. Aliás, neste mesmo episódio ela ajudou diversas pessoas da maneira adequada, mas peguei esta cena justamente por achar que é um aprendizado para ela e todos nós que assistimos.

Veja como o candidato, que já estava muito nervoso na cena sai transtornado — em estado chamado sequestro emocional, quando a parte responsável por nossos sentimentos do cérebro, ou sistema límbico, toma conta de nosso pensamento e não permite mais que sejamos racionais. Veja que ele derruba o pano, sai correndo cabisbaixo, xingando em plena rede nacional. Será que era necessário isto para ele aprender? Será que ele vai tentar alguma outra vez cozinhar, se superar?

Os impactos do Assédio Moral

Uma grande pesquisadora e professora Margarida Barreto realizou uma pesquisa com cerca de 42.000 trabalhadores no Brasil. Em sua pesquisa realizada em 2005, constatou-se que 25% das pessoas reportaram ter sofrido o abuso moral no trabalho e levantou outros dados muito interessantes:

QUANDO ACONTECE

50% Várias vezes por semana

27% Uma vez por semana

14% Uma vez por mês

9% Raramente

QUEM PRATICA

90% Chefe

6% Chefes e colegas

2,5% Colegas

1,5% Subordinado contra chefe

O RESULTADO

82,5% Perda de ânimo e memória

75% Sensação de enlouquecer

67,5% Baixa auto-estima

60% Depressão

AS FRASES MAIS FALADAS

  • É melhor você desistir! É muito difícil e isso é para quem tem garra! Não é para gente como você!
  • A empresa não é lugar para doente. Aqui você só atrapalha!
  • Se você não quer trabalhar, porque não dá lugar para outro?
  • Teu filho vai colocar comida na sua casa? Você não pode sair. Escolha, ou trabalha ou toma conta do filho!
  • Lugar de doente é no hospital! Aqui é para trabalhar!
  • Pessoas como você tem um monte aí fora!
  • Você é mole! Se você não tem capacidade para trabalhar, então fique em casa! Vá para a casa lavar roupa!
  • É melhor você pedir demissão! Você está doente, está indo muito ao médico?
  • Como você pode ter um currículo tão extenso e não consegue fazer essa coisa tão simples?
  • Eu não preciso de gente incompetente igual a você!
  • Você é mesmo difícil! Não consegue aprender as coisas mais simples, até uma criança faz isso!

Como dar o feedback correto

Para combater o assédio moral e diminuir os casos recorrentes nas organizações, existe uma arma poderosa que favorece o desenvolvimento: o feedback. Quando o feedback é dado corretamente, com o uso de métodos adequados o foco fica no comportamento e não na questão pessoal, evita julgamentos, ataques e acusações e aumenta a assertividade para que a pessoa se desenvolva.

No Center for Creative Leadership, maior centro de desenvolvimento de liderança do mundo, aprendi que existe um método muito objetivo chamado SCI para dar feedback.

Ele tem na verdade 3 etapas:

  1. SITUAÇÃO – S – aborde em detalhes o momento em que aconteceu o fato que gerou este feedback. Ele deve ter detalhes como a que hora aconteceu, quem estava presente, qual foi a reunião ou situação que a ocasionou.
  2. COMPORTAMENTO – C – Nesta fase você descreve em detalhes o comportamento da pessoa sobre sua ótica, o que observou que a pessoa fez que ocasionou este feedback.
  3. IMPACTO – I – qual foi o impacto que pode observar sobre você e as pessoas presentes. Caso queira levantar mais dados, fale com as pessoas, tenha informações precisas que tragam outras perspectivas ao seu ponto de vista.

Para dar mais detalhes do método, estou disponibilizando uma ferramenta com exemplos para que você aplique em seu trabalho. Clique aqui para baixar esta ferramenta gratuita de feedback SCI.

Veja no vídeo do masterchef novamente o caso do candidato seguinte. Os jurados aplicam claramente o método SCI.

Seja objetivo mas generoso, não se esqueça que estamos todos aprendendo sempre e utilize a estrutura do SCI também para feedbacks positivos, reforçar o que a pessoa faz bem. Aliás, na sequência do feedback pode vir uma palavra de apoio, de direcionamento (como fazer direito), ser mentor, ser coach da pessoa que tem um ponto a desenvolver – a aplicação destes métodos é tema para um próximo post também.

Feedback, quando bem feito, é uma arma poderosa contra o assédio moral e a favor do desenvolvimento , então vamos aproveitar para juntos reduzirmos ou zerarmos estes números de pessoas assediadas.

O desafio está lançado.

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João Marcelo Furlan é autor do livro FLAPS! Liderança Adaptágil e fundador da Enora Leaders.